sábado, 26 de abril de 2014

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O fogo prova a pureza do ouro.
A dor faz o homem mais resistente.
A honra mantém o forte.
A ganância corrompe os fracos.
O amor cura a alma quebrada.

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Prólogo


...outono...


Um silêncio mortal predominava na paisagem bucólica. O campo outrora verde estava coberto de sangue. Corpos de adultos, crianças e idosos jogados sem nenhuma distinção, todos mortos.

Finas peças de seda misturavam-se a bagagens pessoais, armas e alimentos. Tudo deixado para trás, demonstrando que realmente ocorrera ali não havia sido por dinheiro ou mercadorias. Um clã inteiro estava quase exterminado.

O vento soprou forte, o ranger dos galhos e  farfalhar as folhas emitiram um som melancólico, e ao longe um lobo uivou em agonia.

Os cabelos longos e castanhos dela colavam-se no belo rosto manchado de sangue. Os olhos castanhos perdiam o brilho ao forçar seus pulmões a continuar respirando.

“Tão perto” – pensou ela. – “Estávamos tão perto.”

Somente mais uma hora e estaria de volta a sua amada montanha, somente mais uma hora e poderia entregar o belo kimono que comprara na capital para o casamento de sua filha.

“Tenten...” – seu coração contraíu-se ao pensar em sua caçula. A bela morena de espírito forte que teria que se casar para fortalecer as alianças de seu clã.

“Gomennasai...” – sussurrava, enquanto conseguia ouvir ao fundo o som dos cavalos de seu esposo e filho se aproximando.

– Hana! – o grito angustiado de Takeshiro ecoou dolorido pelo descampado.

Forçou seus olhos a captarem uma última imagem de seu esposo.

“Takeshiro.” Ele sempre fora seu porto seguro, não poderia ter existido companheiro melhor, marido mais compreensivo, pai mais dedicado e amante mais generoso.

Sentiu os braços dele acalentarem cuidadosamente seu corpo enquanto os lábios dele pousavam cuidadosamente sobre os seus.

– Hana... – a voz era embargada, sabia que ali seria o derradeiro adeus. – Arigatou. – as palavras sussurradas tão doloridas, tão cheias de amor. Ele não questionaria o que acontecera, não demandaria saber quem era o responsável, ele somente queria te-la em seus braços por mais alguns instantes.

Hana mergulhou no olhar dourado dele, esquecendo por um momento a dor que as costelas quebradas causavam, lhe impedindo de respirar profundamente. Ali naquele olhar ela sentia que tudo havia valido a pena, viveria ao lado dele novamente sem questionar, mesmo que tivesse que acabar ali, morrendo em seus braços.

– Hahaue?! – A voz chorosa de seu filho lhe chamou a atenção, e virou-se lentamente para encarar seu menino.

– Mizura. – Seu menino havia-se transformado num homem a imagem do pai. – Não chore meu filho... – conseguiu sussurrar. – Cuidem de Tenten...

– Shhh... não fale Hana, somente descance, já vai passar.

Ninguém se moveu, nenhuma palavra foi falada, até que ela expirou sussurrando baixinho que os amava.

Um grito de angústia reverberou por toda encosta montanhosa, enquanto no abrigo da montanha lágrimas doloridas escorriam pelos olhos castanhos de Tenten.